Amar o Processo, Não Só o Final Feliz

Amar o Processo, Não Só o Final Feliz

Eu vou te contar uma coisa que demorei para admitir sobre amar o processo, e não só o final feliz: eu achava que entendia, mas eu só tinha lido sobre isso.

Entender de verdade é diferente de saber repetir uma frase bonita. Saber é coisa do cérebro. Entender é coisa do estômago. É quando dá aquele frio na barriga e alguma coisa dentro da gente muda de lugar.

Durante muito tempo, eu vivi no modo automático, como a maioria de nós entre os 15 e os 37 anos: tentando provar que sou capaz, que sou feliz, que estou bem, que estou vivendo uma vida interessante.

A gente posta, corre, trabalha, responde mensagens, faz planos e finge que está tudo bem.

Eu fiz isso por anos com o meu blog, o Marcel de Andrade, que ficou parado desde 2019. Eu fingia que estava tudo bem deixá-lo parado. Dizia que era falta de tempo.

Não era falta de tempo.

Era falta de coragem para dizer o que eu realmente sentia.

Porque falar sobre o que a gente sente de verdade, sem filtro de autoajuda e sem frases prontas, dá medo.

E amar o processo, e não apenas o final feliz, me obriga justamente a fazer isso.

E se a vida não estivesse esperando você chegar ao final para começar? Aprenda a valorizar o caminho, os pequenos momentos e a pessoa que você está se tornando.

O dia em que a ficha caiu

Teve um dia que foi um verdadeiro divisor de águas.

Eu estava no meu quarto. Era uma quarta-feira, 22h47. Lembro da hora porque olhei para o relógio e pensei:

“De novo estou aqui, reclamando da mesma coisa.”

Meu celular estava com umas vinte abas abertas. Meu coração parecia ter outras vinte pendências abertas também.

Levantei, fui fazer café e, no caminho até a cozinha, me peguei pensando:

Quando foi que eu comecei a adiar o que realmente importa?

A gente acha que amadurecimento vem com a idade.

Não vem.

Às vezes, ele vem com uma pancada. Com um susto. Com uma perda. Com uma conversa que dói.

Vem quando você percebe que está tratando pessoas que te amam como se fossem garantidas e gente que nem te conhece como se fosse prioridade.

Eu sempre fui o cara que respondia um cliente em dois minutos e deixava minha mãe esperando dois dias.

Marcava três compromissos no mesmo dia para parecer produtivo e depois nem lembrava direito de nenhum.

Viajava para tirar foto e não para sentir o vento.

Dizia “eu te amo” com medo de parecer brega.

Dizia “sim” para tudo com medo de parecer egoísta.

Olha que ironia: de tanto medo de parecer alguma coisa, eu acabei me afastando de quem eu realmente era.

Foi em uma conversa com o Jorge que eu entendi outra coisa.

Ele apareceu estressado, sem conseguir explicar direito o que estava acontecendo. Eu quase interpretei aquilo como grosseria.

Quase julguei.

Até perceber que ele talvez simplesmente estivesse no limite dele.

E eu quase perdi a chance de ser abrigo porque estava ocupado demais tentando entender o comportamento dele a partir do meu próprio ponto de vista.

Quantas vezes a gente faz isso?

Julga rápido porque escuta pouco.

A gente ouve para responder, não para entender.

Naquele dia, eu decidi mudar a minha régua.

Não queria mais medir meu valor pela quantidade de curtidas que recebia, pelo quanto produzia ou por quantas pessoas me procuravam.

Eu queria medir por quantas vezes fui realmente presente.

Presente na conversa.

Presente no café.

Presente no abraço.

Presente na vida de quem importa.

O que eu faço hoje, na prática, sem virar monge

Eu não virei um guru que acorda às cinco da manhã, toma banho gelado e medita durante duas horas.

Continuo errando.

Continuo me distraindo.

Continuo tendo dias em que esqueço tudo o que prometi a mim mesmo.

Mas criei três regras simples que começaram a mudar minha relação com o tempo.

1. Uma hora por dia sem tela, de propósito

Sem celular. Sem televisão. Sem ficar pulando de aplicativo em aplicativo.

No começo dá uma espécie de abstinência. A mão procura o celular sozinha.

Depois de alguns minutos, alguma coisa muda.

A cabeça começa a desacelerar.

É nesse espaço que surgem ideias para o blog, frases para as plaquinhas, conversas boas e pensamentos que eu não conseguiria ouvir no meio de uma avalanche de notificações.

Uma hora por dia parece pouco.

Mas, ao longo de um mês, são aproximadamente 30 horas devolvidas para a vida real.

Trinta horas que antes poderiam ser entregues ao feed, à comparação e à distração.

2. Uma visita sem motivo por semana

Eu parei de esperar aniversário, doença ou alguma necessidade para visitar quem amo.

Às vezes, eu simplesmente apareço.

Levo pão.

Faço um café.

Fico quarenta minutos.

Deixo o celular de lado e escuto.

Isso reconstruiu relações que estavam entrando no piloto automático.

Porque relação não se mantém sozinha.

É igual planta.

Se você não rega, ela não morre de uma vez. Vai murchando devagar.

Quando você percebe, já secou.

3. A regra dos cinco minutos

Quando alguma coisa me irrita, eu tento esperar cinco minutos antes de reagir.

Respiro.

Dou um passo para trás.

E faço uma pergunta:

“O que essa pessoa pode ter vivido hoje que eu não sei?”

Isso não significa aceitar qualquer comportamento ou deixar de colocar limites.

Significa apenas não transformar um momento de irritação em uma sentença definitiva.

Essa pequena pausa já me salvou de falar muita besteira.

E, principalmente, me salvou de perder gente boa por causa de orgulho bobo.

Amar o processo é aprender a estar presente

Hoje, quando penso em amar o processo, e não apenas o final feliz, eu não penso mais em teoria.

Penso em prática.

Penso no cheiro do café da minha avó naquela xícara lascada que ela não deixa ninguém jogar fora.

Penso no sofá do Rafael, onde a gente pode ficar em silêncio sem sentir necessidade de preencher o espaço com palavras.

Penso na Lívia, que me ensinou que amar não precisa ser um jogo.

Penso naquele dia em que meu celular ficou sem bateria em Paraty e, pela primeira vez em muito tempo, eu simplesmente vivi a viagem.

Sem fotografar tudo.

Sem postar.

Sem pensar em como aquilo ficaria para os outros.

Eu estava lá.

E talvez seja disso que a vida esteja falando o tempo inteiro.

Estar lá.

Não apenas quando tudo dá certo.

Não apenas quando chegamos ao lugar que imaginamos.

Mas também enquanto estamos tentando.

Enquanto erramos.

Enquanto mudamos de ideia.

Enquanto recomeçamos.

Enquanto ainda não sabemos exatamente para onde estamos indo.

O final feliz pode estar no caminho

No final das contas, amadurecer não é ficar sério.

É ficar mais leve.

É rir de si mesmo.

É pedir desculpas mais rápido.

É amar sem medo de parecer bobo.

É entender que tempo com quem a gente ama não é gasto.

É investimento.

Talvez o maior luxo que temos entre os 15 e os 37 anos não seja parecer felizes na internet.

Talvez seja conseguir ser felizes fora dela, mesmo que ninguém esteja vendo.

Porque o final feliz pode até ser bonito.

Mas existe algo ainda mais importante:

aprender a gostar da pessoa que você está se tornando enquanto caminha até ele.

E talvez amar o processo seja justamente isso.

Não esperar a vida ficar perfeita para começar a aproveitá-la.

É tomar o café enquanto ele ainda está quente.

É visitar alguém antes que exista um motivo.

É ouvir uma história sem olhar para o celular.

É dizer “eu te amo” antes que a coragem vá embora.

É parar de esperar o momento certo para viver.

Porque, no final, a vida não acontece apenas quando chegamos.

Ela acontece enquanto estamos a caminho.

Se essa reflexão tocou você de alguma forma, deixe um comentário contando qual parte do seu processo você precisa aprender a valorizar mais.

E, se quiser levar uma frase especial para a sua parede e lembrá-la todos os dias, você também pode conhecer as plaquinhas artesanais do Rei das Plaquinhas.

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