CAPÍTULO I: A CARTA DE RESCISÃO
Se você olhar bem de perto para uma caneca de café na segunda-feira às sete da manhã, vai perceber que o líquido não está apenas parado. Ele treme. Não é a vibração do metrô passando debaixo do prédio, nem o reflexo da geladeira velha que funciona no ritmo de um asmático em maratona. É o desespero do próprio café. Ele sabe para onde vai. Vai entrar em um organismo que já está operando com 4% de bateria, três traumas de infância mal resolvidos e uma playlist de indie pop depressivo que serve como trilha sonora para o colapso iminente.
Bernardo olhava para a caneca com o olho esquerdo meio fechado. O olho esquerdo dele sempre decidia entrar em greve quando a semana começava. Era uma piscada lenta, quase um pedido de socorro cinematográfico.
— Chega — disse ele para a cozinha vazia. A parede descascada não respondeu, o que foi um alívio, porque se a parede falasse, provavelmente cobraria o aluguel atrasado. — Hoje é o dia. Vou demitir esse infeliz.
O “infeliz” em questão não era o Seu Vanderlei, o chefe de Bernardo na agência de marketing digital de fundo de quintal onde ele trabalhava. O Seu Vanderlei era apenas um peão no tabuleiro do caos, um homem cujo maior talento era usar a palavra “sinergia” três vezes na mesma frase sem fazer o menor sentido. Não. O verdadeiro culpado pelo estado deplorável da vida de Bernardo morava exatamente dezoito centímetros acima do seu pescoço.
O cérebro de Bernardo. Uma massa cinzenta, esponjosa, teoricamente evoluída ao longo de milhões de anos de seleção natural, mas que, na prática, gastava 90% da sua capacidade processando o motivo pelo qual ele tinha passado vergonha na apresentação da escola em 2012 e calculando se a moça do caixa do supermercado tinha sido gentil ou se estava apenas tentando bater a meta de simpatia do estabelecimento.
Bernardo pegou uma folha de papel sulfite amassada e uma caneta esferográfica azul que ele tinha roubado de um banco (o único ato de rebeldia financeira que sua conta bancária permitia). Ele começou a escrever, com a urgência de quem precisa entregar um TCC que define a cura da humanidade:
NOTIFICAÇÃO FORMAL DE DEMISSÃO POR JUSTA CAUSA
Ao: Cérebro (Lobo Frontal, Parietal, Occipital, Temporal e áreas subjacentes de pura ansiedade). De: Bernardo dos Santos (O Proprietário Legal do Corpo).
Prezado Órgão Presunçoso,
Venho por meio desta comunicar o seu desligamento imediato das funções de gerenciamento existencial, tomada de decisões amorosas e processamento de pensamentos intrusivos na madrugada. Motivo: má conduta crônica, quebra de expectativa de paz de espírito e incompetência flagrante na manutenção dos níveis básicos de serotonina.
Você está dispensado do aviso prévio. Favor recolher suas memórias inúteis (incluindo a letra inteira daquela música comercial de refrigerante dos anos 2000) e desocupar a caixa craniana até as 08:30.
Atenciosamente, O cara que paga pelo seu oxigênio.
Bernardo dobrou o papel. Ele se sentia leve. Uma leveza poética, como uma folha de outono caindo no asfalto quente de São Paulo, sabendo que vai ser atropelada por um ônibus da linha 208-A, mas feliz por estar em movimento.
O problema de demitir o próprio cérebro é que, para que a demissão seja homologada, o próprio demitido precisa ler o documento. E foi aí que a voz começou.

CAPÍTULO II: A RÉPLICA DA MASSA CINZENTA
“Ah, sério? Justa causa? Você vai mesmo fazer isso comigo, Bernardo?”
A voz não vinha de fora. Vinha de trás dos olhos, com aquele eco irritante de quem sabe que tem estabilidade no emprego porque não existe transplante de cabeça disponível no SUS. Era a voz do Cérebro. Ele tinha o tom de um estagiário folgado que sabe demais sobre os podres da empresa.
— Sim, justa causa! — Bernardo respondeu em voz alta, apontando para o próprio espelho do banheiro enquanto tentava escovar os dentes sem engolir a espuma. — Você quebrou o contrato. Lembra de sábado à noite? A gente estava num bar legal. Uma pessoa perfeitamente aceitável sorriu para mim. O que você fez? Você me lembrou que meu joelho esquerdo estala quando muda o tempo e que eu provavelmente vou ter artrose antes dos trinta. Você sabotou o flerte com ortopedia preventiva!
“Eu estava protegendo o patrimônio!” argumentou o Cérebro, projetando uma imagem mental holográfica de um raio-X de joelho na parede do banheiro. “Se você se apaixonasse, ia querer dançar. Se você dançasse, o joelho ia falhar. Se o joelho falhasse, você passaria vergonha. Eu encurtei o caminho da humilhação. Sou um herói incompreendido, Bernardo. Um Prometeu da neurose.”
— Você é um tirano! — Bernardo limpou a boca com a toalha. — E hoje eu vou trabalhar no modo automático. Sem você. Só na base do reflexo medular. O sistema nervoso autônomo vai cuidar de mim. O coração bate sozinho, o pulmão infla sozinho, e eu aposto que consigo responder os e-mails do Seu Vanderlei usando apenas a medula espinhal. Aliás, a medula faria um trabalho muito melhor de redação publicitária do que você.
“Boa sorte tentando achar as chaves de casa usando só a medula, ô Inteligência Rara”, debochou o Cérebro, aplicando uma leve pontada de dor de cabeça bem atrás da têmpora direita, só para mostrar quem mandava no disjuntor.
Bernardo sentiu o golpe. Olhou para a mesa da sala. As chaves não estavam lá. Onde estavam as chaves? Ele tinha deixado na gaveta? No bolso do casaco da semana passada? No congelador, porque às vezes a mente dele achava que as chaves precisavam ser conservadas em baixa temperatura?
— Viu só? — Bernardo gritou para o teto. — Você escondeu as chaves para provar o seu ponto! Isso é assédio moral no ambiente de trabalho biológico!
“Eu não escondi. Eu só arquivei a informação numa pasta chamada ‘Coisas que o Bernardo faz quando está fingindo que é um jovem místico desapegado’. Quer a chave? Pede desculpas.”
O relógio marcava 07:45. O ônibus passava às 07:52. Se Bernardo perdesse aquele ônibus, teria que pegar o próximo, o que significava viajar com a cara colada no vidro da janela, compartilhando o oxigênio com quarenta pessoas que também odiavam suas próprias vidas e seus próprios cérebros. A urgência da juventude capitalista falou mais alto do que o orgulho existencial.
— Tá bom! Me desculpa! — Bernardo cedeu, batendo o pé no chão. — Onde estão?
“No bolso de trás da calça que você está vestindo agora.”
Bernardo enfiou a mão no bolso. O metal frio das chaves roçou seus dedos. Uma onda de ferroada irônica percorreu sua espinha. O Cérebro soltou uma risadinha mental que parecia o barulho de uma engrenagem sem óleo.
— Você ganhou essa batalha — sussurrou Bernardo, abrindo a porta do apartamento. — Mas a demissão continua de pé. Eu vou achar o sindicato dos corpos humanos e você vai ver só.

CAPÍTULO III: A BALADA DO TRANSPORTE PÚBLICO
A rua era uma pintura expressionista abstrata pintada por um artista que estava com muita pressa e pouca tinta. O asfalto cinza, o céu de um tom de grafite que prometia uma chuva que nunca descia (só ficava ali, ameaçando, como um boleto na gaveta), e a multidão marchando em direção ao metrô com o ritmo mecânico de formigas operárias que esqueceram o que é o açúcar.
Bernardo entrou no ônibus. O veículo era um ecossistema complexo de sobrevivência urbana. Havia o cobrador, um filósofo estóico que encarava o horizonte como se estivesse vendo o fim do universo; a senhora com a sacola de feira que usava os cotovelos com a precisão de um lutador de UFC; e os jovens da geração Z, com fones de ouvido maiores que suas cabeças, isolados do mundo por barreiras de som de baixa frequência.
Bernardo se segurou na barra de metal superior. Seu corpo balançava de um lado para o outro conforme o motorista jogava o ônibus nas curvas com a audácia de um piloto de fuga que descobriu que o mundo vai acabar em cinco minutos.
“Olha para aquele cara ali”, começou o Cérebro, que claramente não tinha aceitado o aviso de demissão e continuava trabalhando em regime de hora extra não remunerada.
— Que cara? — pensou Bernardo, tentando não mover os lábios para não parecer o maluco do transporte público (embora o nível exigido para ser considerado o maluco do ônibus em São Paulo seja altíssimo).
“Aquele de terno azul-marinho. Ele está lendo um livro sobre investimentos. O título é ‘Como Ficar Rico Antes que o Seu Primeiro Fio de Cabelo Branco Apareça’. Bernardo, você tem três fios de cabelo branco na têmpora esquerda. Eu contei hoje de manhã enquanto você fingia que não via a calvície chegando. E você tem exatamente quarenta e dois reais na conta poupança. Esse cara está ganhando de você. O universo está jogando um RPG e você é o NPC que vende poção barata na vila inicial.”
— Deixa o cara do terno em paz — Bernardo rebateu mentalmente, sentindo a ansiedade subir pelo estômago como um refrigerante chacoalhado. — Ele provavelmente é infeliz. Provavelmente chora no banho ouvindo podcasts de coach motivacional.
“Mas ele chora num banheiro com porcelanato portobello, Bernardo. Você chora num banheiro onde o azulejo está seguro por uma camada de esperança e lodo. Sabe o que eu acho? Acho que se você tivesse usado os 20% de capacidade que gastou decorando as falas de ‘Todo Mundo Odeia o Chris’, você já teria um terno azul.”
— Eu fui demitido de mim mesmo e você continua dando pitaco! — Bernardo se irritou. — Isso é desvio de função. A partir de agora, estou bloqueando seus pensamentos. Modo avião mental ativado.
Ele fechou os olhos. Tentou focar na poesia do movimento. O ônibus era uma grande criatura de ferro, um dragão moderno cuspindo fumaça preta pelas avenidas, carregando as esperanças amassadas da classe trabalhadora. As janelas embaçadas pelo hálito coletivo eram telas onde o destino escrevia poemas de atraso e cansaço. Era lindo, de certa forma. Um quadro expressionista sobre a urgência de chegar a lugar nenhum.
“Que poético”, interrompeu o Cérebro, cortando a brisa estética de Bernardo com uma navalha de puro realismo cínico. “O dragão de ferro acabou de passar do seu ponto. Se você não apertar o botão vermelho agora, vai ter que andar dez quarteirões no vento que corta a cara.”
Bernardo abriu os olhos no susto. O Cérebro estava certo. O dragão de ferro tinha passado voando pela esquina da agência. Bernardo atropelou três pessoas, pediu desculpas para uma mochila, pisou no pé da senhora do UFC (que olhou para ele com promessas de morte violenta) e se jogou para fora do ônibus assim que a porta abriu com um suspiro pneumático.
Ele caiu na calçada. O vento frio bateu no seu rosto. Ele correu. Porque na juventude moderna, se você não está correndo, você está falhando. O relógio não corre; ele caça. E Bernardo era a presa.
CAPÍTULO IV: A AGÊNCIA DO APOCALIPSE COGNITIVO
A “Click & Sinergia – Soluções Digitais” ficava no terceiro andar de um prédio comercial que cheirava a carpete molhado e desinfetante de lavanda barata. A recepção tinha uma parede de grama sintética com um letreiro em neon que dizia: “Work Hard, Play Harder”. Toda vez que Bernardo lia aquilo, ele sentia uma vontade poética de quebrar o neon com uma cadeira de escritório.
Ele bateu o ponto às 08:29. Um minuto antes do prazo final da sua demissão cerebral.
— Bernardo! Meu garoto da sinergia! — O Seu Vanderlei apareceu do nada, segurando uma caneca térmica que prometia manter o café quente por 24 horas, embora o cérebro do Seu Vanderlei parecesse frio há pelo menos dez anos. — Preciso daquela campanha do ‘Doutor do Estofado’ pronta até as dez. O cliente quer algo disruptivo, entende? Algo que mude o paradigma da limpeza de sofás na zona leste. Pensa fora da caixa!
— Claro, Seu Vanderlei. Disruptivo. Fora da caixa — Bernardo respondeu, com a voz mais plana que uma linha de eletrocardiograma de um cadáver.
Ele sentou na sua cadeira. A cadeira tinha um defeito no pistão hidráulico, então, ao longo do dia, ela ia descendo lentamente, fazendo Bernardo terminar a jornada de trabalho com o queixo no nível do teclado, como um gnomo corporativo.
Ele olhou para a tela do computador. O Cérebro estava em silêncio. Um silêncio pesado, de greve geral. O aviso de demissão tinha surtido efeito?
— Cérebro? — Bernardo chamou, mentalmente. — Está aí?
Nada. Apenas o som do cooler do computador girando e o clique-clique dos mouses dos outros três redatores da sala, que pareciam zumbis alimentados a base de rebite e sonhos frustrados de aprovação em concurso público.
— Excelente — Bernardo pensou. — Liberdade. Agora eu vou criar essa campanha usando apenas o puro instinto de sobrevivência.
Ele abriu o arquivo de texto. Escreveu: “Seu sofá está sujo? Limpe-o. Porque a vida já é uma sujeira imensa e você não precisa sentar nos ácaros do seu passado.”
“Nossa, que profundo”, a voz do Cérebro voltou, mas não era a voz normal. Era uma voz que vinha com o som de uma mala sendo arrastada. “O cliente vai amar. Certeza que o Doutor do Estofado vai querer associar a marca dele com o niilismo existencial e a decadência humana. Vai vender muito. Parabéns.”
— Você não tinha ido embora? — Bernardo perguntou, tenso.
“Estou cumprindo o aviso prévio que você não me deu, porque eu sou um órgão com responsabilidade fiscal. Estou empacotando as coisas. Aliás, você quer que eu deixe a memória de como faz a fórmula de Bhaskara ou posso jogar no lixo junto com a sua autoestima?”
— Pode jogar tudo fora! — Bernardo pensou, os dedos voando pelo teclado. — Eu não preciso de Bhaskara para vender limpeza de sofá! Eu não preciso de você! Eu sou um homem livre!
“Livre”, o Cérebro ecoou, com uma ironia poética que quase doeu. “Livre para digitar palavras vazias para uma marca vazia em troca de um salário que some na primeira semana do mês. Olha para a sua tela, Bernardo. Olha para o que você está escrevendo.”
Bernardo olhou. Sem o controle de qualidade do Cérebro, seus dedos tinham digitado uma sequência de letras sem sentido, intercaladas com a frase: “Eu só queria comer um pastel de feira com caldo de cana e esquecer que o tempo existe”.
A porta da sala abriu com um estrondo. Era o Seu Vanderlei.
— E aí, Bernardo? Como está a disrupção? O Doutor do Estofado está na linha! Ele quer um spoiler do conceito!
Bernardo olhou para o Seu Vanderlei. Olhou para a tela. Olhou para a caneta roubada do banco sobre a mesa. O tempo parou. Não aquela parada bonita de filme romântico, mas aquela parada tensa de quando o liquidificador começa a soltar fumaça e você sabe que se não tirar da tomada, o motor vai derreter.
— O conceito… — Bernardo começou, a voz saindo da garganta como um bicho assustado. — O conceito é que o sofá é a metáfora da alma, Seu Vanderlei. Nós acumulamos a poeira dos dias nas nossas superfícies. O Doutor do Estofado não limpa apenas o tecido. Ele extrai as mágoas. Ele aspira os arrependimentos.
O Seu Vanderlei piscou. Três vezes. Os outros redatores pararam de digitar. O silêncio na sala ficou tão denso que dava para ouvir o pistão da cadeira de Bernardo descendo mais um milímetro.
— Rapaz… — o Seu Vanderlei disse, devagar, tirando os óculos. — Isso é… isso é profundo pra caralho. O homem do sofá vai chorar. Continua assim. Sinergia pura!
O Seu Vanderlei saiu, fechando a porta. Bernardo soltou o ar que nem sabia que estava segurando.
“Viu só?” a voz do Cérebro ressoou, com um tom de superioridade insuportável. “Quem você acha que formulou essa baboseira pseudo-intelectual sobre a alma e o tecido? A sua medula espinhal? O seu fígado? Não, meu caro. Fui eu. Eu peguei a sua frustração com a vida, misturei com a falta de café e criei uma obra-prima da publicidade picareta. Você não pode me demitir. Eu sou o roteirista dessa comédia que você chama de existência.”
CAPÍTULO V: O ALMOÇO DOS JUSTOS (OU DOS ANSIOSOS)
Às doze e trinta, o estômago de Bernardo decretou sua própria independência e exigiu carboidratos complexos e gordura trans. Bernardo saiu da agência e foi para o “Restaurante do Nonno”, um self-service por quilo onde o “Nonno” na verdade era um coreano chamado Chang que fazia a melhor lasanha de micro-ondas da região.
O restaurante por quilo é o verdadeiro teste psicológico da juventude urbana. É ali que você mede o seu valor próprio pelo peso do prato. Se der mais de setecentos gramas, você é um burguês esbanjador; se der menos de trezentos, você está falindo ou tentando entrar numa calça jeans que comprou na promoção em 2019.
Bernardo pegava o pegador de salada com a precisão de um cirurgião cardíaco.
“Salada de alface? Sério?” o Cérebro começou o bombardeio habitual. “A gente está numa crise de meia-idade precoce, Bernardo. A gente acabou de inventar uma filosofia sobre sofás para um homem chamado Doutor do Estofado. A gente merece aquela coxinha que está ali no canto, brilhando sob a lâmpada infravermelha desde as dez da manhã. Aquela coxinha tem história. Aquela coxinha tem caráter.”
— A coxinha tem colesterol, Cérebro. E a gente combinou que eu ia cuidar da saúde física já que a mental foi pro vinagre — Bernardo pensou, colocando uma colherada de arroz integral que parecia pedregulho de obra.
“Ah, claro. O arroz integral. O alimento dos homens que desistiram do prazer em nome de uma promessa de viver até os noventa anos guardando dinheiro na poupança de quarenta e dois reais. Deixa eu te contar um segredo poético: o sol vai virar uma gigante vermelha e engolir a Terra daqui a alguns bilhões de anos. Ninguém no universo vai lembrar se o seu prato de segunda-feira tinha arroz integral ou uma coxinha com formato de dinossauro. Come a gordura, Bernardo. Libera a dopamina. Eu estou implorando. Minhas sinapses estão secas!”
Bernardo olhou para a coxinha. Ela realmente parecia um farol de esperança naquele mar de legumes cozidos no vapor sem sal. A urgência da fome aliada ao niilismo cósmico do Cérebro venceu. Ele pegou a coxinha. E um pedaço de lasanha. E um pastelzinho de vento que tinha mais vento do que passado.
Ele sentou numa mesa perto da janela. A rua continuava correndo. Uma moça de uns vinte e poucos anos passou correndo, falando no celular com um fone sem fio, gesticulando dramaticamente.
— Eu não posso falar agora, Jéssica! O algoritmo mudou de novo e minha vida caiu 15% no engajamento orgânico! — ela gritou, sumindo na multidão.
Bernardo mastigou a coxinha. O Cérebro soltou um suspiro de satisfação que pareceu uma massagem térmica nas suas têmporas.
“Viu? O mundo está louco, Bernardo. Todo mundo está tentando engajar o próprio desespero. Nós somos os únicos lúcidos aqui. Bem, eu sou lúcido. Você é só o cara que carrega a minha carcaça.”
— Se você é tão inteligente — Bernardo pensou, olhando o movimento lá fora —, por que a gente não faz algo grande? Por que a gente não larga a Click & Sinergia, escreve um livro, muda para uma praia isolada na Bahia e vive de vender artesanato feito com casca de coco e fios de fone de ouvido velhos?
O Cérebro ficou em silêncio por três segundos. Parecia estar processando os prós e os contras, usando algoritmos de alta precisão baseados em comédias românticas dos anos 90.
“Porque na primeira noite na praia, um mosquito ia picar o seu pé”, respondeu o Cérebro, com a frieza de um relatório do FMI. “E você ia passar a madrugada procurando no Google se o veneno do mosquito da praia causa gangrena. Aí você ia perceber que não tem sinal de internet na praia isolada. Você ia entrar em pânico. Ia chorar com saudade do barulho do trânsito da Avenida Paulista. Você é um produto da selva de pedra, Bernardo. Você reclama do Wi-Fi lento, mas se ficar três horas sem ver um meme de um gato tocando piano, seu sistema imunológico desliga.”
Bernardo engoliu o último pedaço de coxinha. O gosto do realismo era amargo, mas o humor da situação era inegável. Ele era um prisioneiro da sua própria modernidade, um jovem adulto cujo conceito de aventura era comprar uma marca de amaciante diferente da que a mãe comprava.
CAPÍTULO VI: A SÍNDROME DAS TRÊS DA TARDE
Se a segunda-feira é um monstro, as três horas da tarde da segunda-feira são os dentes desse monstro. É o momento em que o almoço já fez o seu trabalho de trazer o sono, o café da manhã já virou história e o fim do expediente parece tão distante quanto a próxima copa do mundo.
Bernardo estava de volta à sua cadeira mecânica descendente. Seu queixo agora estava perigosamente perto da barra de espaço. Ele digitava no automático. O Cérebro tinha entrado em modo de economia de energia, mandando apenas pensamentos espádicos e desconexos.
“Será que as girafas sabem que são esquisitas?”
— Cala a boca — Bernardo respondeu mentalmente.
“Não, sério. Elas se olham no reflexo da água e pensam: ‘Nossa, o criador pesou a mão no pescoço hoje’ ou elas acham que os cavalos é que são cotocos?”
— Eu preciso terminar o texto do Doutor do Estofado, por favor.
“E se você mandasse um e-mail para a empresa inteira agora dizendo que ganhou na loteria e que está indo morar em Paris, mas na verdade você só vai para o seu apartamento dormir por catorze dias seguidos?”
— Eu não tenho dinheiro nem para ir de Uber até o centro, quanto mais para Paris. E se eu mandasse esse e-mail e não ganhasse na loteria, seria demitido de verdade. Daí como eu pagaria os quarenta e dois reais de saldo negativo na conta?
“Você tem um ponto. Mas admite: o e-mail seria poético. Seria um manifesto contra a opressão das planilhas.”
De repente, o computador de Bernardo piscou. Uma notificação do Slack subiu no canto da tela. Era do Seu Vanderlei.
Vanderlei_Sinergia: Bernardo, o Doutor do Estofado amou o conceito da alma e do tecido! Ele quer que você apresente a campanha completa para o conselho de diretores deles amanhã às nove. É a sua chance de brilhar, garoto! Vamos tracionar esse Growth!
Bernardo sentiu o sangue sumir do rosto. O conselho de diretores do Doutor do Estofado. Ele imaginou uma mesa cheia de homens de meia-idade, com camisas polo de marca e expressões de quem avalia o mercado imobiliário com o mesmo prazer com que um tubarão avalia um cardume de sardinhas. E ele teria que explicar para esses homens por que limpar um sofá de suede cinza era o equivalente a uma terapia existencial sartriana.
“Estamos ferrados”, disse o Cérebro, acordando do modo de economia de energia com o alarme de incêndio ligado. “Estamos absolutamente condenados. Eles vão ver através de nós. Vão perceber que você não sabe a diferença entre marketing de conteúdo e uma receita de bolo de cenoura. Eles vão descobrir que a nossa sinergia é uma farsa!”
— Ah, agora você está com medo? — Bernardo ironizou, sentindo o pânico do Cérebro se misturar com o seu. — Cadê o gênio da publicidade? Cadê o Prometeu da neurose? Você que inventou essa história de alma do tecido! Resolve agora!
“Eu crio a arte, Bernardo! Eu não lido com o público! O público é a sua área! Você é o cara que tem a boca, as cordas vocais, o terno imaginário! Eu sou só uma massa cinzenta num quarto escuro batendo com dois pedaços de osso para fazer faísca! Cancela! Finge que pegou uma virose! Diz que comeu uma coxinha estragada no almoço!”
— Mas a coxinha foi ideia sua! — Bernardo gritou mentalmente, chamando a atenção do redator ao lado, que olhou para ele por cima do monitor com os olhos arregalados de quem já viu muitos colapsos nervosos naquele escritório para se importar.
“Foi uma sugestão gastronômica, não um álibi médico!” rebateu o Cérebro. “Bernardo, escuta. Se a gente for lá amanhã, o nosso nível de cortisol vai subir tanto que a gente vai ter um AVC precoce. Pensa na poesia de morrer jovem, mas não numa sala de reuniões com cheiro de couro sintético e Doutor do Estofado escrito na parede!”
Bernardo respirou fundo. Ele olhou para as próprias mãos. Elas estavam tremendo de novo. Mas dessa vez não era pelo café. Era pela urgência da vida que estava acontecendo ali, agora, na velocidade de um clique. Ele tinha 24 anos. Estava na agência mais barata da cidade, escrevendo sobre sofás, com um cérebro que tentava se demitir e que ele tinha tentado demitir horas antes.
Era o caos absoluto. E, no meio do caos, Bernardo encontrou uma estranha, irônica e distorcida sensação de paz.
— Sabe de uma coisa? — ele pensou, com um sorriso de canto que fez o olho esquerdo piscar de novo. — Nós vamos nessa reunião.
“Você enlouqueceu? A medula assumiu o controle?” o Cérebro se desesperou.
— Não. Eu sou o chefe aqui. Eu sou o proprietário legal do corpo, lembra? E eu decidi que nós vamos lá. Nós vamos vender a filosofia do sofá limpo para aqueles caras. Se eles odiarem, a gente é demitido, o que resolve o nosso problema com o Seu Vanderlei. Se eles amarem, a gente ganha um bônus e compra aquela calça jeans que você tanto quer para impressionar as pessoas que você finge que não se importa. É um plano perfeito.
O Cérebro ficou quieto. Um silêncio diferente. Não era a greve, nem o medo. Era o silêncio de quem reconhece que o chefe, por mais tonto que seja, às vezes tem uma intuição que a lógica mais refinada não consegue prever.
“Tá bom…” o Cérebro murmurou, finalmente se rendendo. “Mas se a gente for, eu quero o controle da playlist no caminho de volta para casa. Chega de indie pop. Amanhã a gente vai de heavy metal para aguentar a sinergia.”
— Fechado — Bernardo concordou.
CAPÍTULO VII: A POESIA DA HORA DO RUSH
As dezoito horas chegaram com o som libertador do bipe do ponto eletrônico. O prédio da Click & Sinergia cuspiu seus funcionários para a rua como uma fábrica que esvazia seus tanques de rejeitos no fim do dia.
O sol estava se pondo atrás dos arranha-céus, pintando as nuvens de um tom de laranja e roxo que parecia filtro de aplicativo de fotos, mas que era apenas a luz solar lutando contra a poluição da metrópole. Era uma beleza suja, urgente, real.
Bernardo caminhou até o ponto de ônibus. Ele não correu dessa vez. Deixou que o vento frio da noite que chegava limpasse a fumaça mental da agência.
“Bernardo?” o Cérebro chamou, com a voz mansa, quase tímida, parecendo um funcionário que acabou de receber um aumento de benefícios e quer fazer média com a gerência.
— O que foi agora? Pensou em mais alguma coisa sobre as girafas?
“Não. Só queria dizer que… aquela carta de demissão por justa causa. Onde você guardou?”
Bernardo enfiou a mão no bolso do casaco. O papel sulfite amassado ainda estava lá, junto com o bilhete único e dois chicletes mastigados (que ele esperava que estivessem na embalagem).
— Está aqui comigo. Por quê?
“Amassa e joga na lixeira reciclável da esquina. A gente faz uma dupla esquisita, admito. Eu sou neurótico, você é meio impulsivo. Eu penso demais, você age de menos. Mas, olhando por um lado puramente evolutivo… a gente sobreviveu a mais uma segunda-feira. E isso, no mercado atual, já é um lucro do caralho.”
Bernardo olhou para o papel na sua mão. Ele sorriu. Um sorriso poético, sem a ironia habitual, livre da urgência do relógio. Ele caminhou até a lixeira verde na esquina, soltou o papel e assistiu enquanto ele caía entre as garrafas de plástico vazias e os panfletos de “Trago seu amor de volta em três dias”.
— É… — Bernardo pensou, subindo os degraus do ônibus que acabara de parar, com o motor roncando como um trovão mecânico. — A gente sobreviveu. Mas amanhã, às nove da manhã, se você não me ajudar a explicar o existencialismo do suede cinza para o Doutor do Estofado, eu juro que te troco por um chip de inteligência artificial de qualidade duvidosa.
“Aí você teria que pagar assinatura mensal, Bernardo. E a sua conta continua com quarenta e dois reais negativos. Você está preso a mim.”
— Infelizmente — Bernardo riu para si mesmo, achando um lugar vago perto da janela.
O ônibus partiu, rasgando a noite da cidade, levando Bernardo, seu cérebro, seus três fios de cabelo branco e uma campanha publicitária disruptiva em direção ao futuro. E o futuro, assim como a próxima terça-feira, era uma página em branco que eles teriam que reescrever juntos. Com pressa, com humor e com toda a poesia que aquela massa cinzenta pudesse espremer da realidade.
