Ilustração moderna de um jovem segurando uma carta de demissão enquanto uma figura simbólica representa seu cérebro em um ambiente urbano caótico, transmitindo humor, ansiedade e conflito interno.

Demiti Meu Cérebro | Crônica sobre Ansiedade, Humor e Overthinking

CAPÍTULO I: A CARTA DE RESCISÃO

Se você olhar bem de perto para uma caneca de café na segunda-feira às sete da manhã, vai perceber que o líquido não está apenas parado. Ele treme. Não é a vibração do metrô passando debaixo do prédio, nem o reflexo da geladeira velha que funciona no ritmo de um asmático em maratona. É o desespero do próprio café. Ele sabe para onde vai. Vai entrar em um organismo que já está operando com 4% de bateria, três traumas de infância mal resolvidos e uma playlist de indie pop depressivo que serve como trilha sonora para o colapso iminente.

Bernardo olhava para a caneca com o olho esquerdo meio fechado. O olho esquerdo dele sempre decidia entrar em greve quando a semana começava. Era uma piscada lenta, quase um pedido de socorro cinematográfico.

— Chega — disse ele para a cozinha vazia. A parede descascada não respondeu, o que foi um alívio, porque se a parede falasse, provavelmente cobraria o aluguel atrasado. — Hoje é o dia. Vou demitir esse infeliz.

O “infeliz” em questão não era o Seu Vanderlei, o chefe de Bernardo na agência de marketing digital de fundo de quintal onde ele trabalhava. O Seu Vanderlei era apenas um peão no tabuleiro do caos, um homem cujo maior talento era usar a palavra “sinergia” três vezes na mesma frase sem fazer o menor sentido. Não. O verdadeiro culpado pelo estado deplorável da vida de Bernardo morava exatamente dezoito centímetros acima do seu pescoço.

O cérebro de Bernardo. Uma massa cinzenta, esponjosa, teoricamente evoluída ao longo de milhões de anos de seleção natural, mas que, na prática, gastava 90% da sua capacidade processando o motivo pelo qual ele tinha passado vergonha na apresentação da escola em 2012 e calculando se a moça do caixa do supermercado tinha sido gentil ou se estava apenas tentando bater a meta de simpatia do estabelecimento.

Bernardo pegou uma folha de papel sulfite amassada e uma caneta esferográfica azul que ele tinha roubado de um banco (o único ato de rebeldia financeira que sua conta bancária permitia). Ele começou a escrever, com a urgência de quem precisa entregar um TCC que define a cura da humanidade:

NOTIFICAÇÃO FORMAL DE DEMISSÃO POR JUSTA CAUSA

Ao: Cérebro (Lobo Frontal, Parietal, Occipital, Temporal e áreas subjacentes de pura ansiedade). De: Bernardo dos Santos (O Proprietário Legal do Corpo).

Prezado Órgão Presunçoso,

Venho por meio desta comunicar o seu desligamento imediato das funções de gerenciamento existencial, tomada de decisões amorosas e processamento de pensamentos intrusivos na madrugada. Motivo: má conduta crônica, quebra de expectativa de paz de espírito e incompetência flagrante na manutenção dos níveis básicos de serotonina.

Você está dispensado do aviso prévio. Favor recolher suas memórias inúteis (incluindo a letra inteira daquela música comercial de refrigerante dos anos 2000) e desocupar a caixa craniana até as 08:30.

Atenciosamente, O cara que paga pelo seu oxigênio.

Bernardo dobrou o papel. Ele se sentia leve. Uma leveza poética, como uma folha de outono caindo no asfalto quente de São Paulo, sabendo que vai ser atropelada por um ônibus da linha 208-A, mas feliz por estar em movimento.

O problema de demitir o próprio cérebro é que, para que a demissão seja homologada, o próprio demitido precisa ler o documento. E foi aí que a voz começou.

Add a Comment

Your email address will not be published. Required fields are marked *