A gente encontra tempo para o trabalho, para os amigos e para tantas outras coisas. Mas será que está encontrando tempo para quem sempre esteve ao nosso lado?

O Depois Que Quase Me Fez Perder o Que Importava

Eu tinha uma mania feia, daquelas que a gente só percebe quando já machucou alguém: família era sempre "depois". Depois do trabalho, depois da entrega de plaquinhas do Rei das Plaquinhas, depois do rolê com os amigos, depois que eu ficasse menos cansado. Minha avó ligava no meio da tarde, eu olhava o celular e pensava "já retorno". Meu pai chamava pra almoçar no domingo e eu respondia "pai, essa semana tá corrida, semana que vem eu vou". E a semana que vem virava mês, que virava "nossa, já é Natal de novo?".

Eu me achava ocupado. Ocupado é uma palavra chique pra dizer que a gente tá com medo de parar. Porque se eu paro, eu tenho que lidar com o que importa. E o que importa dá trabalho emocional.

Até que numa terça-feira, sem aviso, minha mãe me ligou com a voz embargada: "Sua avó passou mal, estamos no hospital". Não era nada gravíssimo, graças a Deus, foi uma queda de pressão, mas naquela sala de espera branca, com cheiro de álcool e café frio, meu mundo fez um barulho de freio. Eu percebi que eu tinha tempo pra responder cliente às 23h, mas não tinha tempo pra tomar um café com a mulher que me ensinou a amarrar o cadarço.

Eu fiquei ali, 3 horas, sem celular, só pensando em quantas vezes eu adiei. Quantas vezes eu disse "depois" e o depois quase não veio. Quando ela saiu, com aquele sorrisinho fraco, me deu um abraço que parecia que eu tinha 8 anos de novo.

A gente trata estranho melhor que parente

Repara que louco: a gente tem paciência infinita com chefe chato, com cliente que muda o pedido 10 vezes, com atendente de telemarketing. A gente fala "claro, sem problemas". Mas responde a mãe com "hm" no WhatsApp. Deixa o pai no vácuo. Marca jantar com gente que mal conhece pra fazer networking e desmarca o almoço com o irmão porque "tô cansado". A gente inverteu a lógica.

Eu lembro do dia que cheguei na casa da minha avó depois desse susto. Sem motivo. Sem ser data comemorativa. Ela abriu a porta e levou um susto: "O que aconteceu?". Eu disse "nada, vó, vim tomar café". Ela fez aquele café coado na hora, colocou na xícara lascada que ela ama e que ninguém pode jogar fora, e soltou: "Que bom que você veio, pensei que você só vinha no Natal". Aquela frase doeu mais que tapa na cara. Porque era verdade. Eu só aparecia quando tinha obrigação social.

Família não é perfeita. Tem implicância, tem piada repetida do tio que conta a mesma história há 15 anos, tem tio que fala de política na hora do pavê, tem mãe que pergunta se você tá comendo direito mesmo você tendo 30 anos. Mas é o único lugar onde você pode chegar descabelado, de pijama, com olheira, chorando, e ainda assim ser amado. Na rua você precisa performar. Em casa, não.

Outro dia meu primo de 12 anos me perguntou: "por que você não vem mais aqui?". Eu não soube responder. Porque a resposta verdadeira era "porque eu tava correndo atrás de coisas que não importam tanto". E isso dói admitir.

O antídoto é a visita sem motivo

Depois disso eu criei uma regra idiota que salvou minhas relações: uma visita sem motivo por semana. Sem aniversário, sem doença, sem precisar de nada. Só aparecer. Levar pão. Tomar café. Ficar 40 minutos. Sem celular na mesa. Só ouvir.

No começo foi estranho. Meu pai perguntou "você tá precisando de dinheiro?". Eu disse "não, tô precisando de vocês". Ele ficou quieto. Depois riu. Depois me abraçou diferente.

É impressionante como isso cura uma relação que estava no modo automático. Porque família não se mantém sozinha. É igual planta: se você não rega, não morre de uma vez, vai murchando devagar. Quando você vê, já secou.

Hoje eu não deixo mais pra depois. Porque o depois é o lugar onde a gente mais se arrepende. Depois eu ligo. Depois eu visito. Depois eu peço desculpas. E às vezes, o depois não chega.

Se você leu até aqui e lembrou de alguém da sua família, larga esse celular agora e manda um "tô com saudade, bora tomar um café essa semana sem motivo?". Não espera o susto. Vai antes. O café mais importante da sua semana pode ser o que não tem motivo nenhum pra acontecer.

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