saldos internos

O Escudo de Espinhos: A Garota que Destruía o Que Mais Queria

CAPÍTULO I: A ARTE DE ANDAR ARMADA (SEM PÓLVORA, SÓ COM PALAVRAS)

Aos vinte anos, o mundo não é um mapa para ser explorado; é um território ocupado que você precisa conquistar antes que alguém decida que você não tem o direito de estar ali. Maria Eduarda — Duda para os três sobreviventes que ainda arriscavam lhe dar bom-dia — acordava todos os dias com a nítida sensação de que a vida era um eterno jogo de queimada. Se você não arremessasse a bola primeiro com força total na cara de alguém, mais cedo ou mais tarde, levaria uma bolada bem no meio do estômago.

Duda olhava para o espelho do quarto com aquela energia de quem está prestes a entrar num octógono, e não numa linha de metrô às sete e meia da manhã. Ela era bonita, de um jeito magnético e meio bagunçado, com olhos que pareciam ler a sua alma e imediatamente procurar o ponto fraco dela. Ela queria o mundo. Queria o topo, o sucesso, o respeito, a independência financeira e aquela paz de espírito que as blogueiras de bem-estar vendem em potes de vidro no Instagram. O problema era a engenharia reversa que ela aplicava nas suas relações humanas.

Para Duda, a melhor defesa sempre foi, é e sempre seria o ataque nuclear preventivo.

— Você vai com essa blusa? — perguntou a mãe dela, da cozinha, enquanto Duda passava pela sala feito um rastro de tempestade. Era uma pergunta inocente. Uma pergunta de mãe que se preocupa com o vento frio de São Paulo.

— Não, mãe, eu vou pelada. É a nova tendência da moda corporativa, sabia? Super disruptivo — Duda respondeu, disparando o comentário com a velocidade de uma submetralhadora. O tom de voz era perfeitamente calibrado: nem muito alto para ser considerado um grito, nem muito suave para deixar dúvidas de que ela achava a pergunta uma imbecilidade profunda.

— Eu só perguntei porque vai chover, Eduarda… — a mãe suspirou, encolhendo os ombros.

— É brincadeira, mãe! Credo, que mau humor logo cedo. Você não aguenta uma piada — Duda completou, soltando uma risadinha seca e saindo pela porta antes que a culpa pudesse alcançá-la.

Sempre era brincadeira. Essa era a cláusula de escape favorita de Duda. Ela passava com um trator por cima dos sentimentos de alguém e, logo em seguida, estendia uma bandeira de “fui irônica” como se isso magicamente colasse os pedaços quebrados do ego alheio.

A verdade psicológica que Duda enterrava debaixo de sete chaves, no porão mais escuro da sua mente, era muito mais simples e dolorosa: ela morria de medo. Medo de ser rejeitada, medo de não ser boa o bastante, medo de que as pessoas descobrissem que, por trás daquela armadura de sarcasmo e respostas afiadas, existia uma garota que ainda chorava assistindo a vídeos de cachorrinhos sendo adotados. Para não ser ferida, ela feria. Se ela afastasse as pessoas antes que elas pudessem abandoná-la, a narrativa continuava sob o seu controle. “Eu não fui rejeitada, eu é que mudei de calçada porque achei o ambiente cafona”, ela justificava para o próprio cérebro.

E assim, Duda colecionava conhecidos, acumulava block no Twitter e empilhava cadáveres de amizades que tinham potencial, mas que morreram por asfixia irônica. Até que ela entrou na “NeoFocus Soluções Financeiras” e bateu de frente com o parágrafo mais bonito e perigoso da sua biografia recente: Júlio.

Alguns espinhos nos protegem do mundo. Outros acabam impedindo que o mundo nos encontre. 

CAPÍTULO II: O FENÔMENO JÚLIO

Júlio era o oposto geográfico e astrológico de Duda. Se Duda era um dia de tempestade com raios na Marginal Tietê, Júlio era aquele final de tarde de domingo no Parque do Ibirapuera, onde o sol bate na água do lago e tudo parece, por cinco minutos, que vai dar certo no Brasil. Ele tinha 22 anos, uma paciência que parecia ter sido importada de um mosteiro budista e o sorriso mais desarmado do setor de atendimento ao cliente.

Eles se conheceram na máquina de café que — para variar — tinha engolido a nota de cinco reais de Duda sem liberar o cappuccino de avelã.

— Eu odeio essa máquina. Eu odeio o capitalismo. Eu odeio essa empresa e o engenheiro mecânico que desenhou esse pedaço de plástico inútil — Duda praguejava, desferindo um chute milimetricamente calculado na base do equipamento.

— Calma, justiceira — Júlio disse, aparecendo ao lado dela com uma caneca de cerâmica que ele mesmo tinha trazido de casa. — Se você quebrar o patrimônio, o Seu Antunes vai descontar do seu vale-refeição, e aí você vai odiar o capitalismo com o estômago vazio. O que é bem pior.

Duda virou-se, pronta para cravar as garras verbais naquele desconhecido abusado.

— Ah, apareceu o advogado de eletrodomésticos. Você ganha comissão da marca ou só gosta de passar vergonha defendendo uma caixa de metal que rouba dinheiro de estagiário?

Qualquer outra pessoa teria fechado a cara, pegado o seu café e saído murmurando sobre como a juventude de hoje está perdida e agressiva. Mas Júlio apenas riu. Uma risada leve, de verdade. Ele pegou a própria nota de cinco reais, colocou na máquina, apertou o botão do cappuccino de avelã e entregou o copo plástico para ela.

— Pronto. A dignidade operária foi restaurada. Prazer, Júlio. Sou do suporte técnico.

Duda pegou o copo. O líquido estava quente, doce e perfeitamente reconfortante. Ela olhou para Júlio, tentando achar a pegadinha. Onde estava o deboche? Onde estava a segunda intenção? Não havia. Júlio era apenas… legal. Uma espécie rara e quase extinta de ser humano que não operava na frequência da defensiva.

A partir daquele dia, a gravidade fez o seu trabalho. A agência NeoFocus virou o cenário de uma amizade que cresceu na velocidade dos dados de fibra óptica. Eles almoçavam juntos todos os dias. Enquanto Duda desfazia de cada prato da praça de alimentação com seu olhar clínico de crítica gastronômica frustrada (“Esse frango morreu de tédio antes de ser grelhado, certeza”), Júlio equilibrava a balança (“Mas a batata frita está crocante, foca no lado positivo da gordura trans, Duda”).

O entrosamento deles era assustadoramente bom. Júlio entendia as referências de cultura pop dela; Duda conseguia fazer Júlio rir até perder o fôlego com as suas imitações do chefe de seção. Havia uma química platônica perfeita ali. Uma daquelas conexões raras onde o silêncio não é desconfortável e as conversas fluem como se os dois estivessem lendo o mesmo roteiro de comédia indie.

CAPÍTULO III: A MADRUGADA É UMA TELA SEM FILTRO

Se o dia na agência era bom, as noites nas redes sociais eram o verdadeiro epicentro da amizade. Assim que batiam o ponto e entravam no ônibus para voltar para suas respectivas casas, os celulares ganhavam vida. Era um fluxo contínuo de Reels de cachorros fazendo bobagem, TikToks de teorias da conspiração absurdas, memes internos que só faziam sentido para os dois e áudios de cinco minutos de Duda contando como a vizinha dela passava pano no corredor usando um rodo barulhento de propósito para sabotar seu sono.

Duda: Olha esse print. O cara do Tinder me mandou um ‘oi sumida’ sendo que a gente deu match hoje de manhã. A audácia do homem heterossexual precisa ser estudada pela NASA.

Júlio: Kkkkkkkk o cara tá operando no fuso horário da ansiedade. Mas vai que ele só queria puxar assunto? Vc é muito severa, Duda.

Duda: Severa não, realista. Se eu não cortar as asas desse povo logo de cara, amanhã ele tá me mandando foto do gato dele e me convidando para um piquenique no cemitério. Deus me livre de gente fofa.

Júlio: Cemitério é meio pesado kkkk mas um piquenique normal é legal. Vc devia desarmar essa bomba que vc carrega no peito um pouquinho. Faz bem pra pele.

Duda: Se eu desarmar a bomba, o mundo me atropela, Julinho. Prefiro ser o tanque de guerra. Mas relaxa, com vc eu uso munição de festim.

Duda digitou essa última frase e sentiu um calafrio estranho na ponta dos dedos. Munição de festim. Era o máximo de afeto que ela conseguia verbalizar sem sentir que estava entregando as coordenadas do seu quartel-general para o inimigo. E Júlio entendia. Ele lia aquelas defesas textuais dela e conseguia enxergar as entrelinhas. Ele sabia que o sarcasmo de Duda era apenas o plástico bolha que ela usava para embrulhar uma alma que já tinha sido muito lascada pelo mundo.

Eles saíram algumas vezes fora do horário de expediente. Foram a uma livraria no centro da cidade, tomaram açaí na esquina da avenida principal e, em uma sexta-feira de chuva fina, ficaram duas horas trancados dentro de uma cabine de jogos de um shopping antigo, tentando bater o recorde de pontuação de um jogo de tiro dos anos 2000.

Foi nessa noite que Júlio olhou para ela, enquanto Duda comemorava a vitória esmurrando o ar e rindo com o cabelo bagunçado caindo nos olhos, e disse:

— Você devia sorrir assim mais vezes, sabia? Sem aquela cara de quem vai processar o universo a qualquer momento. Você fica dez vezes mais legal sendo só a Duda.

Duda congelou por um milésimo de segundo. O elogio bateu na sua couraça de ferro e fez um barulho oco. O Cérebro dela — aquela máquina paranoica de sobrevivência — imediatamente disparou o protocolo de emergência: “Alerta de vulnerabilidade! Ele está sendo legal demais! Ele está tentando ver o que tem por baixo do escudo! Rápido, solte uma piada ácida para restabelecer a distância de segurança!”

— Ah, obrigada pelo diagnóstico, doutor — Duda respondeu, cruzando os braços e mudando o tom para aquela ironia cortante. — Não sabia que além de consertar o Wi-Fi da agência você também tinha pós-graduação em terapia de comportamento alheio. Quanto eu te devo pela consulta? Quer que eu pague em dinheiro ou em vale-refeição?

O sorriso de Júlio deu uma leve vacilada. Bem de leve. O suficiente para quem presta muita atenção perceber que um pequeno espinho tinha entrado na pele.

— É só um elogio, Duda. Não precisa morder.

— Eu não estou mordendo! É brincadeira, Julinho. Você é muito sensível, parece um floco de neve no verão — ela riu, dando um empurrãozinho de leve no ombro dele.

Júlio sorriu de volta, mas os olhos dele já não estavam tão brilhantes quanto antes. O escudo de Duda tinha funcionado de novo. Ela estava segura. Mas, pela primeira vez, a segurança pareceu um pouco fria demais.

 

CAPÍTULO IV: A NOITE DO GATILHO

O ápice e o abismo daquela amizade resolveram marcar um encontro na mesma noite, um mês depois. Era sábado. O ar estava com aquela temperatura perfeita que convida os jovens a gastarem o dinheiro que não têm em bares com lâmpadas de filamento e cerveja artesanal superfaturada.

Júlio tinha convidado Duda para comemorar uma pequena grande vitória: ele tinha recebido uma proposta para virar analista júnior no setor de tecnologia de uma empresa parceira. Era um aumento de salário, menos cobrança e o primeiro passo real da carreira que ele tanto planejava enquanto tomava cafés ruins na NeoFocus.

Eles escolheram um barzinho com mesas na calçada, música de fundo acústica e um cardápio escrito a giz numa lousa preta. Júlio estava radiante. Ele falava com as mãos, descrevendo as novas atribuições, o escritório que tinha uma vista legal da cidade e como ele finalmente ia conseguir trocar a bateria viciada do seu notebook.

Duda ouvia tudo. E, à medida que a empolgação de Júlio subia, uma sombra escura e familiar começava a rastejar pelos cantos da mente dela.

Inveja? Não. Duda gostava de Júlio de verdade, ela queria vê-lo bem. O problema não era o sucesso de Júlio; era o espelho que aquele sucesso colocava na cara dela. Júlio estava avançando. Júlio estava conquistando o mundo com aquele jeito leve, calmo e simpático dele. E ela? Ela continuava na mesma mesa, atendendo telefones de clientes irritados, sendo a garota agressiva do terceiro andar que todo mundo evitava no elevador. O monstro da insegurança de Duda acordou com fome. E quando o monstro dela tinha fome, ele não pedia comida; ele pedia sangue verbal.

— …e aí o gerente me disse que eu tenho o ‘perfil exato’ que a equipe precisa para os próximos trimestres! Cara, eu nem acreditei — Júlio concluiu, levantando o copo de chope para um brinde, os olhos brilhando de orgulho puro.

Duda olhou para o copo dele. Olhou para o sorriso dele. A urgência de se proteger da sua própria sensação de fracasso tomou o controle dos comandos biológicos dela. A ironia subiu pela garganta como um veneno destilado em barril de carvalho.

— Nossa, Júlio. Parabéns, de verdade — ela começou, mas o “parabéns” veio acompanhado daquele sorriso de canto de boca que mudava todo o significado da frase. — Analista júnior do setor de suporte… Uau. O mercado internacional de tecnologia que se cuide, hein? O próximo passo é o quê? Descobrir como reiniciar o modem da empresa em inglês para ganhar um bônus de performance?

O bar barulhento pareceu ficar em silêncio absoluto para Júlio. O copo de chope dele continuou no ar por dois segundos, estático, como um monumento a uma alegria que tinha acabado de ser alvejada por um sniper de elite.

— O que você quer dizer com isso, Duda? — Júlio perguntou, a voz descendo dois tons, perdendo toda a leveza que o acompanhava desde as sete da manhã.

— Nada, ué! — ela respondeu rapidamente, sentindo a primeira fisgada de pânico ao perceber que tinha pesado a mão, mas o orgulho se recusava a bater em retirada. — Só acho engraçado como vocês da TI acham que mudar o cabo de rede de lugar é o equivalente a descobrir a cura de uma doença. É fofo ver você todo orgulhoso por ter virado o cara que vai trocar a senha do Wi-Fi dos outros com um crachá novo.

O golpe foi direto no estômago. Júlio não vinha de uma família rica; ele tinha passado os últimos dois anos estudando programação nas madrugadas, depois de passar nove horas atendendo telefone e levando bronca de cliente para conseguir aquela vaga. Aquela promoção era o seu troféu de noites em claro, de cansaço acumulado, de café frio e de olhos ardendo na frente do monitor. Ver a pessoa que ele considerava a sua melhor amiga reduzir todo o seu esforço a uma piada de mau gosto sobre “reiniciar o modem” foi como levar um tapa na cara em praça pública.

Júlio colocou o copo devagar na mesa. O barulho do vidro batendo na madeira soou como o martelo de um juiz encerrando um caso.

— Você realmente não consegue segurar esse seu desprezo por cinco minutos, né? Nem para comemorar algo que importa para mim — Júlio disse, olhando fixamente para ela, mas os olhos dele não tinham raiva. Tinham algo muito pior: decepção. Uma decepção profunda, cinzenta e definitiva.

— Ai, Júlio, que drama! — Duda tentou rir, mas a risada saiu frouxa, assustada, ecoando a urgência de quem vê o barco afundar e tenta tirar a água com uma colher de chá. — É brincadeira! Pelo amor de Deus, como você está sensível hoje. É óbvio que eu estou feliz por você. Foi só uma piada. Eu sou irônica, você me conhece. Sempre foi assim!

— É, eu sei que sempre foi assim — Júlio respondeu, levantando-se da cadeira e pegando a sua carteira para deixar o dinheiro do chope na mesa. — Esse é o problema, Duda. Sempre é assim. Tudo para você é uma piada, tudo é desprezo disfarçado de humor, tudo é você tentando mostrar que está acima de todo mundo porque tem medo de que alguém descubra que você está no chão junto com o resto de nós. Só que eu cansei de ser o saco de pancadas da sua imunidade emocional.

— Júlio, senta aí! Não viaja, a gente está conversando! — Duda pediu, a voz subindo de tom, a agressividade voltando como um mecanismo automático de defesa contra a rejeição que ela mesma tinha provocado. — Se você vai dar esse showzinho por causa de uma frase idiota, então o problema não sou eu, é a sua autoestima que é do tamanho de um grão de areia!

Júlio parou por um segundo. Olhou para ela uma última vez. Não havia ódio na cara dele, apenas o cansaço poético de quem tentou salvar uma planta que só sabia produzir espinhos.

— Minha autoestima está ótima, Duda. Tanto que eu decidi que não mereço ouvir isso de quem eu chamava de amiga. Boa noite.

Ele virou as costas. E caminhou. Caminhou pela calçada, misturando-se à multidão da noite de sábado, sumindo entre as luzes dos carros e os letreiros de neon dos outros bares.

Duda ficou sentada. Sozinha. A mesa parecia ter ficado três vezes maior. O copo de chope de Júlio ainda tinha espuma, mas o gás já estava morrendo. Ela olhou para os lados, esperando que ele voltasse da esquina rindo, dizendo que também era brincadeira, que tinha sido um teste.

Mas ninguém voltou. Apenas o garçom veio, olhou para a mesa vazia e perguntou se ela ia querer mais alguma coisa.

— Não — Duda respondeu, a voz saindo tão baixa que o garçom teve que ler os seus lábios. — Não quero nada.

CAPÍTULO V: O SILÊNCIO DOS SINAIS VERDES

O domingo foi um deserto digital.

Duda passou o dia inteiro com o celular na mão. A tela, que antes parecia um festival de notificações, Reels e áudios de Júlio, agora era apenas um retângulo de vidro frio que refletia a sua cara de poucos amigos. Ela abria a conversa dele a cada dez minutos. O status dizia “Online”. Ela começava a digitar.

“Olha, você foi muito infantil ontem…” — Apagava.

“Desculpa pelo que eu falei, mas você também não precisava…” — Apagava.

“Achei um meme de um gato que parece o Seu Antunes” — Apagava.

O orgulho de Duda era um vigia feroz que guardava os portões da sua vulnerabilidade. Mandar uma mensagem de desculpa genuína, sem nenhuma camada de ironia ou justificativa ácida, significava admitir que ela tinha errado. Significava expor o pescoço. E se Júlio a ignorasse? E se ele respondesse com a mesma frieza que ela tinha usado contra ele durante meses? A dor da rejeição seria insuportável. Então, ela não mandou nada. Esperou que o tempo fizesse o trabalho de anestesiar a situação, como sempre acontecia com as suas outras brigas de colégio.

Mas a segunda-feira na agência chegou com o peso de uma bigorna de desenho animado.

Duda chegou mais cedo, comprou dois cappuccinos de avelã na máquina dos cinco reais e ficou esperando perto do elevador. Quando as portas se abriram às oito e quinze, Júlio saiu de lá. Ele estava usando uma camisa nova, o cabelo bem cortado e a mesma mochila de sempre.

Duda deu um passo à frente, segurando os copos quentes, tentando ensaiar o seu melhor sorriso de “nada aconteceu”.

— Olha só quem apareceu! O executivo do ano. Trouxe o seu combustível para mudar o mundo dos cabos de rede — ela disse, estendendo o copo. A frase ainda tinha um resquício de ironia, o velho hábito que se recusava a morrer.

Júlio parou. Olhou para o copo na mão dela. Depois, olhou bem nos olhos de Duda. Não havia raiva, não havia o brilho do sábado à noite. Havia apenas uma distância profissional que parecia ter o tamanho do Oceano Atlântico.

— Obrigado, Duda, mas eu já tomei café em casa — ele respondeu, com a voz educada, plana, a voz que ele usava para atender diretores da empresa. — E hoje eu estou meio corrido, preciso alinhar os acessos com o pessoal da TI nova. Com licença.

Ele passou por ela. Não foi um corte grosseiro, não foi uma briga com dedos apontados. Foi pior. Foi o protocolo civilizado do desapego.

Duda ficou ali, segurando os dois cappuccinos enquanto o líquido começava a esfriar e a queimar os seus dedos através do plástico fino. Ela sentiu uma vontade poética e violenta de chorar bem ali, no meio do corredor, perto do mural de avisos da Click & Sinergia. Mas ela engoliu o choro. Apertou os dentes até a mandíbula doer e jogou os dois copos cheios na lixeira de recicláveis.

CAPÍTULO VI: A SÍNDROME DO QUARTO VAZIO

Duas semanas se passaram. Júlio mudou de andar. Agora ele trabalhava no quinto andar, na TI avançada. Duda continuava no terceiro. Às vezes eles se cruzavam no refeitório ou na saída do prédio.

— Oi, Júlio — ela dizia, a voz desarmada, quase um pedido de socorro silencioso.

— Oi, Duda. Tudo bem? — ele respondia, com um aceno de cabeça perfeito, um sorriso de três segundos que não chegava até os olhos, e continuava caminhando.

Ela tinha sido rebaixada de “melhor amiga e confidente das madrugadas” para “colega de empresa cujo nome eu lembro”. O pior de tudo não era a falta das conversas no bar; era o silêncio do celular às onze da noite. A madrugada, que antes era uma passarela de cumplicidade, virou um tribunal onde Duda era a única ré, a única testemunha e a juíza que se condenava à solidão crônica.

Ela deitava na cama, olhava para o teto onde a sombra do ventilador de teto girava devagar e percebia o tamanho do estrago que seu comportamento tinha causado. Ela queria conquistar o mundo, sim. Tinha vinte anos, energia de sobra e ambição para dar e vender. Mas de que adiantava conquistar o mundo se, quando você chegasse no topo da montanha para ver a vista, não teria ninguém do seu lado para dividir o fone de ouvido ou rir da cafonice das nuvens?

A ironia, que antes parecia uma espada reluzente que a protegia dos monstros da rejeição, revelou-se o que realmente era: um bumerangue que ela atirava contra os outros, mas que sempre voltava para cortar a sua própria carne.

Duda pegou o celular. Entrou na conversa de Júlio. O histórico ainda estava lá, uma biblioteca de momentos felizes que pareciam ter sido vividos por duas outras pessoas, dois jovens que não tinham medo de ser idiotas juntos. Ela rolou a tela até a última mensagem dele no sábado da briga: “Boa noite.”

Ela respirou fundo. Deixou que as lágrimas que vinha guardando há duas semanas finalmente limpassem a maquiagem e o orgulho do seu rosto. Seus dedos, trêmulos, sem nenhuma pressa irônica, mas cheios da urgência poética de quem precisa salvar o que restou de si mesma, digitaram uma última mensagem:

Duda: Não é brincadeira, Júlio. Nunca foi. Eu tive medo de você ser legal demais e descobrir que eu sou um desastre. Eu sinto muito por ter estragado a sua noite e a nossa amizade. Você merecia aquele abraço que eu não te dei por orgulho. Parabéns pelo emprego novo. Você vai longe. De verdade.

Ela não esperou a resposta. Não olhou se o “Online” ia subir. Ela bloqueou a tela, colocou o celular com o visor virado para baixo na mesa de cabeceira e fechou os olhos.

O escudo de espinhos tinha caído. Duda continuava sem o mundo nas mãos, continuava com vinte anos e um emprego comum no terceiro andar. Mas, pela primeira vez na vida, ela sentiu que a sua alma não estava mais usando munição de festim. Ela estava machucada, sim, mas estava real. E a realidade, mesmo quando dói como uma amizade perdida no asfalto da cidade, é o único lugar onde a gente consegue aprender a crescer de verdade.

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