Quando eu terminei, eu tive uma certeza absoluta de que nunca mais amaria alguém. Não era drama, era verdade. Eu olhei para o futuro e só via vazio. Eu pensei: como eu vou gostar de outra pessoa se todo o meu amor ainda está aqui? Como eu vou rir de piada de outra pessoa se a risada dela ainda está na minha cabeça? Eu descobri que amar de novo seria traço ou que a gente viveu. E ao mesmo tempo, eu morria de medo de ficar sozinho para sempre. Era um luto duplo: eu chorava o fim e chorava o medo de nunca mais sentir aquilo. Se você terminou agora e está se sentindo assim, respira. Eu já estive exatamente onde você está. E eu preciso te dizer: você vai amar de novo. De um jeito diferente, mais maduro, mais seu. Mas vai.
Os 90 dias em que eu achei que tinha quebrado para sempre
O termo não foi cinematográfico. Não teve grito, não teve traição escandalosa. Foi um desgaste bonito que virou silêncio. A gente se amava, mas se machucava tentando se amar do jeito errado. Quando terminei, eu achei que ia ser um rompimento. E foi, por umas 6 horas. Depois veio um buraco. Eu acordei e por dois segundos esqueci que tinha terminado. Aí lembrava. E o peito afundava. Eu fiquei rolando na cama, pegando o celular, abrindo a conversa, escrevendo e apagando. Eu perseguia como se fosse trabalhar. Via quem curtiu, quem comentou, se estava online. Cada história era uma fachada que eu mesmo procurava.
Eu tentei ser forte rápido demais. Fiz aquela lista de “motivos para não voltar”, ouvi um conselho de amigo que disse “já supera, tem muita gente por aí”, tentei sair para balada na segunda semana. Voltei para casa chorando no Uber. Eu não queria outra boca, eu queria a minha história de volta. Eu idealizei tudo. De repente, a relação tinha sido perfeita. Eu esqueci das brigas, do cansaço, das vezes que chorei sozinho. Na minha cabeça, eu tinha perdido o amor da minha vida e nunca mais ia achar alguém igual. A verdade é: não ia mesmo. Porque igual não existe. Mas melhor, mais compatível, mais leve, existe.
Teve uma noite que foi o fundo do poço. Fez um mês do término e eu vi que a pessoa já saiu, se divertindo. Eu surtei. Mandei mensagem longa, daquelas que a gente se arrependeu no mesmo segundo que envia. Falei que sentia falta, que ainda amava, que a gente podia tentar. A pessoa foi madura e disse que não. Que prazer de mim, mas que não dava mais. Eu me sinto humilhado e aliviado ao mesmo tempo. Humilhado por ter implorado, aliviado porque finalmente tinha um não definitivo. O talvez seja que mata. O não, por mais que doa, liberta.
Eu comecei a ter medo de nunca mais amar porque eu confundia o amor com aquela pessoa específica. Eu descobri que amar era sentir aquele frio na barriga ansiosa, aquele ciúme, aquela intensidade. Hoje eu sei que aquilo era apego com amor misturado. Eu não sabia ficar sozinho. Então qualquer silêncio meu virava saudade dela. Eu não senti falta só dela, eu senti falta de quem eu era quando estava com alguém. De ter para quem mandar bom dia, de ter planos no fim da semana, de ter alguém para contar o dia. Eu estava de luto pelo amor e pela rotina.
Nesses 90 dias eu chorei no banho, chorei no mercado vendo o iogurte que ela gostava, chorei ouvindo música brega no volume máximo. E tudo bem. O muito açúcar precisa de espaço. O erro foi achar que eu estava quebrado. Eu não estava quebrado, eu estava em reforma. E reforma faz barulho, faz poeira, parece que piorou antes de melhorar.
Como voltei a acreditar no amor sem me apressar
A virada não foi conhecer alguém novo. Foi quando eu parei de procurar alguém novo para me salvar. Foi quando eu entendi que eu não precisava amar de novo rápido, eu precisava me ter de volta. Eu comecei a fazer por mim o que eu fazia pela relação: cuidar, planejar, surpreender. Marquei um encontro comigo mesmo toda semana. Sem celular, sem pressa. Fui ao cinema sozinho, viajei sozinho, aprendi a cozinhar o que eu gostava. Aos poucos, o desespero virou saudade calma, e a saudade calma virou gratidão. Eu também preciso reescrever a história. Em vez de “perdi o amor da minha vida”, passei a contar: “vivi um amor que me ensinou muito sobre o que eu quero e o que eu não aceito mais”. Isso muda tudo. Quando você para colocar uma pessoa num pedestal e começa a ver a relação como ela foi, inteira, com luz e sombra, você para de idealizar e começa a aprender. E quem aprende, não repete o mesmo padrão só com CPF diferente.
