Eu tinha orgulho das minhas mágoas. Sério. Eu guardava cada decepção como se fosse um troféu de sobrevivência. "Eu nunca mais falo com fulana", "eu bloqueei ciclano e nunca vou desbloquear", "eu não perdoo". Eu descobri que isso era força, que isso era limite, que isso era amor-próprio. Na minha cabeça, perdoar era ser boba, esquecer era ser fraca, e seguir a vida como se nada tivesse acontecido era ser trouxa. Então eu fiz o oposto: lembrei de tudo, com detalhes, dados, horas, frases exatas. Eu ensaiava conversas na cabeça onde eu finalmente disse tudo que eu não disse. Eu revivi as cenas como quem aperta o replay de um filme de terror só pra sentir o susto de novo. Eu perdi que guardasse o rancor me protegia. Mal sabia eu que quem estava preso prisão não era a pessoa que me machucou, era eu. Eu era a carcereira e a prisioneira ao mesmo tempo, e chamava aquilo de maturidade.
A coleção invisível de pedras que eu carregava
no bolso todos os dias
Começou cedo. A primeira grande mágoa foi da minha tia que não foi no meu aniversário de 12 anos. Parece bobo agora, mas na época eu chorei escondida. Depois foi o amigo que forneceu um segredo meu na escola. Depois do primeiro ficante que me deixou no vácuo depois de jurar que gostava de mim. Eu fui guardando. Não conscientemente, eu não tinha um potezinho escrito "mágoas", mas eu fui acumulando. Cada decepção virou uma pedrinha no bolso. E eu andava com os bolsos cada vez mais pesados.
Eu não percebia o peso até começar a fazer calo nas costas. Literalmente. Eu vivia tensa, com dor no ombro, dor de cabeça. Eu tinha dificuldade de confiar em gente nova. Alguém me elogiou e eu já pensei "o que ela quer?". Alguém se aproximava e eu já colocava uma barreira invisível: "não chega muito perto não, que eu já fui machucada antes". Eu usava minhas mágoas como escudo e como identidade. Eu era "a menina que foi traída", "a amiga que foi deixada de lado", "a pessoa que ninguém valoriza". Eu contei minhas histórias de dor como se fossem meu currículo. E quanto mais eu contava, mais eu acreditava nelas.
Teve um dia que explodiu com uma amiga nova por causa de algo minúsculo. Ela atrasou 20 minutos e eu transformei aquilo numa prova de que ninguém se importa comigo. Eu joguei na cara dela todas as minhas decepções antigas, como se ela fosse responsável por todas as pessoas que já me deixaram esperando na vida. Ela ficou sem entender nada e eu, depois, chorando, entendi: eu não estava brava com ela, eu estava brava com todo mundo que já me machucou e que eu nunca tive coragem de confrontar ou liberar. Eu estava descontando no presente uma conta do passado. Naquela noite eu fiz uma lista. Escrevi o nome de todo mundo que eu ainda guardava mágoa. Deu duas páginas. Duas páginas de gente que provavelmente nem lembrava mais de mim, enquanto eu ainda carregava elas nas costas todos os dias. Foi ali que caiu a ficha: guardar mágoa não era amor-próprio, era autoabandono. Eu estava me punindo por algo que os outros fizeram.
Perdoar não é passar pano: 3 passos para soltar sem se diminuir
O dia que tudo mudou foi quando uma terapeuta me disse: "perdão não é sobre o outro, é sobre devolver o lixo que colocaram na sua casa". Aquilo fez todo sentido. Eu não preciso dizer que estava tudo bem, eu só preciso tirar o lixo da minha sala. E lixo acumulado fede, adolescente, atrai coisa ruim. Então comecei um processo de faxina emocional, que não foi rápido, mas foi libertador. Esses foram os três passos que funcionaram pra mim.

Add a Comment